22 de fevereiro de 2011

Mundo pitoresco – As melhores viagens

Nada nos tira a certeza de que vivemos num mundo efusivamente pitoresco. Se fosse escolher para onde viajar no próximo fim de semana, por exemplo, não faria uma boa opção, a não ser pela decisão de fazê-la em tempo hábil para organizar tudo e todos dentro de um cubículo onde pudéssemos, com a impossibilidade de qualquer distração, arrumar as malas, antes de pensar se fizemos uma boa escolha. Mas se fosse escolher de forma hipotética ou até mesmo compreensível, no ponto de vista de alguém com a vista cansada, seria a melhor opção. E acabou sendo, quando comprei as passagens para visitar o Xisto de Burgess, local paleontologicamente essencial ao estudo da explosão câmbrica (ou cambriana, como alguns ciento-paleonto-historiadores preferem corrigir com o dedo indicador em riste).

Situado na Laurência, antigo continente de latitudes equatoriais originado da junção proposital entre placas norte-americanas e européias, é dessa localidade que conhecemos os queridos animais filtradores, odontogriphus (otorrinozanclus para os xiitas), braquiópodes, detritívoros, intuitípodes (esses, enigmáticos até hoje), anelídeos, necrófagos, mergulhões hadais macrofaunísticos (de origem e destino duvidosos), suspensívoros, equinodermes, eqüidistantes (não comprovados) e várias cianobactérias bentônicas, com destaque para a zona centro-leste batipelágica. Vale a pena uma visita, sem compromisso, ao aquário natural de priapulídeos e ao museu com minúsculos fósseis não autorizados de Ottoia, até porque se você procurar na Internet não vai encontrar nada.

Aí entra a questão, tantas vezes em pauta nas reuniões de associações e institutos que faço parte ou não: Aos que pretendem conhecer localidades como essa (não existentes via Google Earth, por exemplo), como despregar as nádegas amassadas da cadeira e abandonar seus “i-petrechos” numa aventura real?

Sem resposta e cansado de mais uma tendenciosa discussão sobre a verossimilhança física versus crença digital, decidi fazer outra boa escolha. Dessa vez fora desse mundo pitoresco e junto com um time de malucos da MacBurtney University and Lodging, rumo ao espaço Calabi-Yau, uma dimensão proporcional recurvada, não menos pitoresca e com condição de p-brana (variedade admitida em n0 e formato holomórfico global jamais nulo, segundo estudos ciento-astro-físico-quânticos). Após uma semana de preparação, tomando gororoba e tocando violão, me confundi com as cordas p4, r5, p11, r11 e f19, de afinações distintas e reconfortantes. Foi aí que entendi porque esse mundo tão pitoresco ainda serve de úbere dessa vaca tão endoplasmática que chamamos de universo...

2 comentários:

Reinaldo Castro disse...

Bela metáfora!

Alex disse...

Gostei do texto embora ache que uma pessoa que não conheça física quântica nem paleontologia vai achar alucinação, o que pode até ser bom, alias, brilha o nosense de qualquer forma. Bacana foram as inserções criativas nas espécies e a foto de um elefante servindo vinho quando a gente espera uma vaca ou um fossil, nebulosa, kkk, abs.

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